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L01 · O wedge
~11 MIN DE LEITURA

Lição 1 de 8: O wedge: usuário × tarefa × canal

lição 1/8 do Módulo 2
AO FIM, VOCÊ VAI TER
  • Modelo do wedge entendido: usuário × tarefa × canal de aquisição
  • Teste do triângulo aplicado em 2 produtos brasileiros que você usa
  • Rascunho do triângulo da sua própria ideia de produto

No Módulo 1 você configurou o ambiente. Agora começa o trabalho de produto: decidir o que construir. O modelo desta lição é o (usuário × tarefa × canal) aplicado num produto real e público: o CEAP, que analisa gastos parlamentares de deputados federais (R$ 700M+ analisados, 847 deputados, dados abertos da Câmara) e virou referência de auditoria pro coLAB-i do TCU. É um produto pequeno e real, do tipo que você vai saber construir até o fim do curso.

O CEAP volta em mais lições do Módulo 2 como fio condutor: plano real, decisões registradas e código em produção, tudo aberto pra você ver o método aplicado. O produto que você constrói é o seu: um dashboard no mesmo estilo, ou o que você já tem em mente. No fim do curso, ele está no ar.

O que é um wedge

Um wedge é a interseção de três elementos:

wedge = um usuário × uma tarefa × um canal de aquisição

A palavra vem de "cunha": o primeiro corte fino que abre espaço pra todo o resto. No produto, é a versão mais estreita e mais defensável de uma ideia: alguém com uma necessidade definida, fazendo uma tarefa concreta, descobrindo o produto por um caminho conhecido.

Os três precisam estar visíveis na mesma frase. Quando algum dos três fica vago, o produto vira genérico: fica difícil de explicar, de validar e de vender.

Exemplo principal: o wedge real do Guia TCU

A ferramenta CEAP (ceap.escoladados.com) já existia desde 2024 quando o coLAB-i, laboratório de inovação do Tribunal de Contas da União, pediu uma reunião pra entender o que a ferramenta fazia. A reunião já estava marcada quando surgiu o plano de uma feature nova: uma página específica pra essa apresentação, que viraria referência permanente pros auditores.

O wedge dessa feature, com o triângulo destacado:

Auditores do coLAB-i do TCU [usuário] querem entender o CEAP em 30 minutos de reunião e ter referência pra revisitar depois [tarefa], com a porta aberta pelo próprio coLAB-i que pediu a reunião [canal de aquisição].

Trocar qualquer um dos três muda o produto:

  • Se o usuário fosse "auditor genérico do setor público," a página teria que explicar o que é CEAP do zero. Pro coLAB-i, eles já sabem.
  • Se a tarefa fosse "aprender análise de fraude," a página viraria curso. Pra reunião de 30 min, é guia de tour.
  • Se o canal fosse "publicação aberta no Twitter," o tom teria que ser mais acessível, menos técnico, e o link pra "como podemos colaborar" seria intrusivo. Pro canal real, é apropriado.

O plano escrito antes de codar (feat-tcu-guide-tab.md, formato de plano de feature que você vai aprender a escrever na L05) abre com:

This tab serves three purposes: (1) Presentation guide — walk TCU folks through the tool during the meeting; (2) Permanent reference — after the meeting, they can revisit this tab as their entry point; (3) Bridge to collaboration — naturally show how this complements TCU's existing audit work.

Tradução: "esta aba serve três propósitos: (1) guia de apresentação, pra conduzir o time do TCU pela ferramenta durante a reunião; (2) referência permanente, que eles podem revisitar como porta de entrada depois da reunião; (3) ponte pra colaboração, mostrando naturalmente como isso complementa o trabalho de auditoria que o TCU já faz."

Os três elementos do wedge aparecem na primeira frase do plano. Decidir esse triângulo antes de codar deu o tom do produto: o que entra, o que fica de fora, qual o nível de profundidade técnica, onde o CTA mora.

Como testar se uma ideia tem wedge

Pega a frase que descreve a ideia e tenta trocar cada um dos três elementos por uma alternativa razoável. Se a frase continua fazendo sentido depois das trocas, o elemento estava vago. Se a frase quebra, o elemento estava bem definido.

Procedimento:

  1. Escreva a ideia em uma frase única.
  2. Tente trocar o usuário por outro plausível. A frase ainda faz sentido?
  3. Tente trocar a tarefa. Ainda faz sentido?
  4. Tente trocar o canal de aquisição. Ainda faz sentido?

Se as três trocas mantêm a frase válida, você ainda não tem um wedge: tem uma família de produtos possíveis. Se trocar qualquer um dos três quebra a frase, você tem um wedge: os três se sustentam.

Outros wedges como referência rápida

Três exemplos curtos pra calibrar o olho antes do exercício:

1. Conta Azul, 2012. Contadores autônomos atendendo MEI e ME [usuário] queriam um ERP simples que eles próprios pudessem vender ao cliente [tarefa], descobrindo o produto por canal contador-distribuidor com treinamento gratuito [canal]. O canal aqui é o ponto: a Conta Azul não vendia para a dona da padaria, vendia para o contador da padaria, que virava distribuidor.

2. Querido Diário, 2018 (Open Knowledge Brasil). Jornalistas e pesquisadores investigando municípios pequenos [usuário] queriam buscar texto integral de Diários Oficiais municipais sem ter que abrir 5.500 sites [tarefa], descobrindo o projeto por rede de jornalismo de dados e Open Knowledge [canal]. Wedge cívico claro: o usuário, a tarefa e o canal só fazem sentido juntos. Tirar qualquer um dos três quebra.

3. RD Station, 2011. Agências de marketing digital pequenas no interior [usuário] precisavam de landing pages e email automation que substituíssem 4 ferramentas separadas [tarefa], chegando à RD por revenda B2B com comissão recorrente [canal]. Se o usuário fosse "empresa B2B em geral," a RD competiria com a HubSpot e provavelmente perderia.

Frases que parecem wedge mas não são

Para reconhecer um não-wedge:

"Um SaaS de gestão para pequenos negócios brasileiros."

A tarefa está vaga: troque "gestão" por "RH," "marketing" ou "financeiro" e a frase continua válida. O usuário também: troque "pequenos negócios" por "PMEs," "MEIs" ou "startups" e nada muda. O canal não está na frase. Família de produtos, não wedge.

"Plataforma de transparência pra cidades pequenas."

Tem usuário (cidades pequenas) e tarefa (transparência) genéricos demais. Transparência sobre o quê: orçamento, gastos, contratos, atos administrativos? Quem na cidade pequena: secretário, jornalista local, vereador, cidadão? Como a cidade descobre: convênio, cold outreach, demanda do MP? Os três elementos estão vagos.

"Marketplace de cursos online para concurseiros."

Tem usuário (concurseiros) e tarefa (estudar para concurso). Mas o canal de aquisição não está na frase. Como o concurseiro descobre seu marketplace especificamente, em vez do Estratégia ou do Gran Cursos? Se a resposta é "marketing digital," o canal continua vago.

"Marketing digital" e "redes sociais" são categorias muito amplas para serem canais de aquisição. Dentro delas existem canais reais: convite de amigo, revenda B2B, conteúdo orgânico em uma plataforma específica, parceria com associação de classe, indicação por professor universitário. Um canal específico permite identificar a primeira pessoa para quem você manda o produto na semana 1 depois de lançar.

Exercício: aplicar o modelo em produtos que você já usa

Escolha 2 produtos brasileiros que você usa hoje (qualquer coisa que cobra dinheiro ou atenção). Pra cada um, articule o triângulo do wedge da época em que o produto era novo, não da versão atual.

Cole o template no Claude. Ele vai te ajudar a articular a frase e te avisar quando algum dos três elementos estiver vago.

prompt · text
Aprendi o conceito de wedge: `usuário × tarefa × canal de aquisição`. Vou aplicar em dois produtos que eu uso, descrevendo o wedge **original** (não a versão atual da empresa). Para cada um:

1. Em uma frase única, descreva o triângulo `usuário × tarefa × canal de aquisição` da época em que o produto **acabou de lançar**.
2. Marque os três elementos com colchetes: `[usuário]`, `[tarefa]`, `[canal]`.
3. Aplique o teste do triângulo: para cada um dos três, proponha uma troca razoável e me diga se a frase ainda faria sentido. Se algum dos três passa no teste de troca (a frase continua válida), avise que aquele elemento não está bem definido.
4. Se você não souber o canal de aquisição original, escreva "não sei o canal original; meu chute é X, não verificado". Não invente.

Produto 1: 
Produto 2: 

Saída esperada: duas frases (uma por produto), com colchetes visíveis, e um veredito para cada uma: "wedge bem definido" ou "elemento X vago."

Exemplo do formato esperado, para você se calibrar:

Produto: Conta Azul (2012)
Frase: [contadores autônomos atendendo MEI/ME] × [ERP simples que o contador vende ao cliente] × [canal contador-distribuidor com treinamento gratuito].
Teste de troca:
  - Trocar usuário por "PMEs em geral": frase quebra, ERP só faz sentido pra contador.
  - Trocar tarefa por "emitir nota fiscal": passa, mas perde a especificidade do canal.
  - Trocar canal por "marketing digital": frase quebra, o produto inteiro é desenhado em torno do canal contador.
Veredito: wedge bem definido.
PRODUTO_1[PRODUTO_1]um produto brasileiro que você usa. Exemplos comerciais: iFood, Mercado Livre, Gympass, 99, Hotmart. Exemplos cívicos/dados: Querido Diário, Serenata de Amor, Atlas da Notícia, Gov.br. Escolha o que for mais próximo do tipo que você quer construir.
PRODUTO_2[PRODUTO_2]outro produto brasileiro que você usa. De preferência de uma categoria diferente do primeiro.

Cole o prompt no Claude e leia a resposta. Se algum dos dois produtos saiu como "elemento X vago," não tente corrigir a resposta do Claude. Abra o apêndice (apendices/wedge-examples) e procure o produto na lista. Os exemplos do apêndice citam fontes públicas e dão a versão verificada do triângulo. Se o produto não estiver no apêndice, marque como "não verificado" e siga.

Rascunho da sua ideia

Agora aplique o modelo na sua ideia de produto. Esta é a versão preliminar. O docs/product.md que você escreve na L02 é o registro definitivo, e a L02 ensina a convenção de docs do curso.

prompt · text
Aqui está a minha ideia de produto:

> 

Aplique o teste do triângulo:

1. Identifique na minha frase um candidato a [usuário], [tarefa] e [canal de aquisição]. Se algum dos três não estiver na frase, marque como **AUSENTE** e proponha um candidato razoável.
2. Para cada um dos três (ausente ou presente), tente trocar por uma alternativa razoável e me diga se a frase ainda faria sentido com a troca.
3. Veredito: "wedge bem definido," "wedge com elemento X vago," ou "ainda é uma família de produtos, não um wedge específico."
4. Se o veredito não for "bem definido," sugira **um único ajuste pequeno** para especificar (exemplo: trocar "pequenos negócios" por "contador autônomo MEI"). Não me dê um plano completo, só um ajuste.

Saída: análise, veredito, e (se aplicável) a sugestão de ajuste.
IDEIA_INICIAL[IDEIA_INICIAL]a ideia de produto que você está pensando em construir, em 1-2 frases. Pode estar vaga; o exercício é justamente especificar.

A resposta do Claude vai te dar uma noção honesta de onde a sua ideia está. Não tente reescrever agora. Peça pro Claude salvar a resposta dele em notas/wedge-rascunho.md na raiz do seu projeto. A L02 vai ler esse arquivo pra começar o exercício do docs/product.md.

Takeaways

  • Wedge = um usuário × uma tarefa × um canal de aquisição. Os três precisam aparecer na mesma frase.
  • Teste do triângulo: troque cada um dos três por uma alternativa razoável. Se a frase continua válida, aquele elemento estava vago.
  • "Marketing digital" e "redes sociais" são categorias, não canais. Canal real é específico o bastante pra apontar a primeira pessoa pra quem você manda o produto na semana 1.
  • O wedge é decidido antes de codar. No CEAP, o triângulo da aba do TCU virou a primeira frase do plano de feature e ditou o tom do produto.

Você terminou quando

Você consegue articular o triângulo usuário × tarefa × canal de pelo menos 2 produtos brasileiros que você usa, e tem um rascunho do triângulo da sua própria ideia, mesmo que parcialmente vago.