Lição 1 de 8: O wedge: usuário × tarefa × canal
- Modelo do wedge entendido: usuário × tarefa × canal de aquisição
- Teste do triângulo aplicado em 2 produtos brasileiros que você usa
- Rascunho do triângulo da sua própria ideia de produto
No Módulo 1 você configurou o ambiente. Agora começa o trabalho de produto: decidir o que construir. O modelo desta lição é o (usuário × tarefa × canal) aplicado num produto real e público: o CEAP, que analisa gastos parlamentares de deputados federais (R$ 700M+ analisados, 847 deputados, dados abertos da Câmara) e virou referência de auditoria pro coLAB-i do TCU. É um produto pequeno e real, do tipo que você vai saber construir até o fim do curso.
O CEAP volta em mais lições do Módulo 2 como fio condutor: plano real, decisões registradas e código em produção, tudo aberto pra você ver o método aplicado. O produto que você constrói é o seu: um dashboard no mesmo estilo, ou o que você já tem em mente. No fim do curso, ele está no ar.
O que é um wedge
Um wedge é a interseção de três elementos:
wedge = um usuário × uma tarefa × um canal de aquisição
A palavra vem de "cunha": o primeiro corte fino que abre espaço pra todo o resto. No produto, é a versão mais estreita e mais defensável de uma ideia: alguém com uma necessidade definida, fazendo uma tarefa concreta, descobrindo o produto por um caminho conhecido.
Os três precisam estar visíveis na mesma frase. Quando algum dos três fica vago, o produto vira genérico: fica difícil de explicar, de validar e de vender.
Exemplo principal: o wedge real do Guia TCU
A ferramenta CEAP (ceap.escoladados.com) já existia desde 2024 quando o coLAB-i, laboratório de inovação do Tribunal de Contas da União, pediu uma reunião pra entender o que a ferramenta fazia. A reunião já estava marcada quando surgiu o plano de uma feature nova: uma página específica pra essa apresentação, que viraria referência permanente pros auditores.
O wedge dessa feature, com o triângulo destacado:
Auditores do coLAB-i do TCU [usuário] querem entender o CEAP em 30 minutos de reunião e ter referência pra revisitar depois [tarefa], com a porta aberta pelo próprio coLAB-i que pediu a reunião [canal de aquisição].
Trocar qualquer um dos três muda o produto:
- Se o usuário fosse "auditor genérico do setor público," a página teria que explicar o que é CEAP do zero. Pro coLAB-i, eles já sabem.
- Se a tarefa fosse "aprender análise de fraude," a página viraria curso. Pra reunião de 30 min, é guia de tour.
- Se o canal fosse "publicação aberta no Twitter," o tom teria que ser mais acessível, menos técnico, e o link pra "como podemos colaborar" seria intrusivo. Pro canal real, é apropriado.
O plano escrito antes de codar (feat-tcu-guide-tab.md, formato de plano de feature que você vai aprender a escrever na L05) abre com:
This tab serves three purposes: (1) Presentation guide — walk TCU folks through the tool during the meeting; (2) Permanent reference — after the meeting, they can revisit this tab as their entry point; (3) Bridge to collaboration — naturally show how this complements TCU's existing audit work.
Tradução: "esta aba serve três propósitos: (1) guia de apresentação, pra conduzir o time do TCU pela ferramenta durante a reunião; (2) referência permanente, que eles podem revisitar como porta de entrada depois da reunião; (3) ponte pra colaboração, mostrando naturalmente como isso complementa o trabalho de auditoria que o TCU já faz."
Os três elementos do wedge aparecem na primeira frase do plano. Decidir esse triângulo antes de codar deu o tom do produto: o que entra, o que fica de fora, qual o nível de profundidade técnica, onde o CTA mora.
Como testar se uma ideia tem wedge
Pega a frase que descreve a ideia e tenta trocar cada um dos três elementos por uma alternativa razoável. Se a frase continua fazendo sentido depois das trocas, o elemento estava vago. Se a frase quebra, o elemento estava bem definido.
Procedimento:
- Escreva a ideia em uma frase única.
- Tente trocar o usuário por outro plausível. A frase ainda faz sentido?
- Tente trocar a tarefa. Ainda faz sentido?
- Tente trocar o canal de aquisição. Ainda faz sentido?
Se as três trocas mantêm a frase válida, você ainda não tem um wedge: tem uma família de produtos possíveis. Se trocar qualquer um dos três quebra a frase, você tem um wedge: os três se sustentam.
Outros wedges como referência rápida
Três exemplos curtos pra calibrar o olho antes do exercício:
1. Conta Azul, 2012. Contadores autônomos atendendo MEI e ME [usuário] queriam um ERP simples que eles próprios pudessem vender ao cliente [tarefa], descobrindo o produto por canal contador-distribuidor com treinamento gratuito [canal]. O canal aqui é o ponto: a Conta Azul não vendia para a dona da padaria, vendia para o contador da padaria, que virava distribuidor.
2. Querido Diário, 2018 (Open Knowledge Brasil). Jornalistas e pesquisadores investigando municípios pequenos [usuário] queriam buscar texto integral de Diários Oficiais municipais sem ter que abrir 5.500 sites [tarefa], descobrindo o projeto por rede de jornalismo de dados e Open Knowledge [canal]. Wedge cívico claro: o usuário, a tarefa e o canal só fazem sentido juntos. Tirar qualquer um dos três quebra.
3. RD Station, 2011. Agências de marketing digital pequenas no interior [usuário] precisavam de landing pages e email automation que substituíssem 4 ferramentas separadas [tarefa], chegando à RD por revenda B2B com comissão recorrente [canal]. Se o usuário fosse "empresa B2B em geral," a RD competiria com a HubSpot e provavelmente perderia.
Frases que parecem wedge mas não são
Para reconhecer um não-wedge:
"Um SaaS de gestão para pequenos negócios brasileiros."
A tarefa está vaga: troque "gestão" por "RH," "marketing" ou "financeiro" e a frase continua válida. O usuário também: troque "pequenos negócios" por "PMEs," "MEIs" ou "startups" e nada muda. O canal não está na frase. Família de produtos, não wedge.
"Plataforma de transparência pra cidades pequenas."
Tem usuário (cidades pequenas) e tarefa (transparência) genéricos demais. Transparência sobre o quê: orçamento, gastos, contratos, atos administrativos? Quem na cidade pequena: secretário, jornalista local, vereador, cidadão? Como a cidade descobre: convênio, cold outreach, demanda do MP? Os três elementos estão vagos.
"Marketplace de cursos online para concurseiros."
Tem usuário (concurseiros) e tarefa (estudar para concurso). Mas o canal de aquisição não está na frase. Como o concurseiro descobre seu marketplace especificamente, em vez do Estratégia ou do Gran Cursos? Se a resposta é "marketing digital," o canal continua vago.
"Marketing digital" e "redes sociais" são categorias muito amplas para serem canais de aquisição. Dentro delas existem canais reais: convite de amigo, revenda B2B, conteúdo orgânico em uma plataforma específica, parceria com associação de classe, indicação por professor universitário. Um canal específico permite identificar a primeira pessoa para quem você manda o produto na semana 1 depois de lançar.
Exercício: aplicar o modelo em produtos que você já usa
Escolha 2 produtos brasileiros que você usa hoje (qualquer coisa que cobra dinheiro ou atenção). Pra cada um, articule o triângulo do wedge da época em que o produto era novo, não da versão atual.
Cole o template no Claude. Ele vai te ajudar a articular a frase e te avisar quando algum dos três elementos estiver vago.
Aprendi o conceito de wedge: `usuário × tarefa × canal de aquisição`. Vou aplicar em dois produtos que eu uso, descrevendo o wedge **original** (não a versão atual da empresa). Para cada um:
1. Em uma frase única, descreva o triângulo `usuário × tarefa × canal de aquisição` da época em que o produto **acabou de lançar**.
2. Marque os três elementos com colchetes: `[usuário]`, `[tarefa]`, `[canal]`.
3. Aplique o teste do triângulo: para cada um dos três, proponha uma troca razoável e me diga se a frase ainda faria sentido. Se algum dos três passa no teste de troca (a frase continua válida), avise que aquele elemento não está bem definido.
4. Se você não souber o canal de aquisição original, escreva "não sei o canal original; meu chute é X, não verificado". Não invente.
Produto 1:
Produto 2:
Saída esperada: duas frases (uma por produto), com colchetes visíveis, e um veredito para cada uma: "wedge bem definido" ou "elemento X vago."
Exemplo do formato esperado, para você se calibrar:
Produto: Conta Azul (2012)
Frase: [contadores autônomos atendendo MEI/ME] × [ERP simples que o contador vende ao cliente] × [canal contador-distribuidor com treinamento gratuito].
Teste de troca:
- Trocar usuário por "PMEs em geral": frase quebra, ERP só faz sentido pra contador.
- Trocar tarefa por "emitir nota fiscal": passa, mas perde a especificidade do canal.
- Trocar canal por "marketing digital": frase quebra, o produto inteiro é desenhado em torno do canal contador.
Veredito: wedge bem definido.Cole o prompt no Claude e leia a resposta. Se algum dos dois produtos saiu como "elemento X vago," não tente corrigir a resposta do Claude. Abra o apêndice (apendices/wedge-examples) e procure o produto na lista. Os exemplos do apêndice citam fontes públicas e dão a versão verificada do triângulo. Se o produto não estiver no apêndice, marque como "não verificado" e siga.
Rascunho da sua ideia
Agora aplique o modelo na sua ideia de produto. Esta é a versão preliminar. O docs/product.md que você escreve na L02 é o registro definitivo, e a L02 ensina a convenção de docs do curso.
Aqui está a minha ideia de produto:
>
Aplique o teste do triângulo:
1. Identifique na minha frase um candidato a [usuário], [tarefa] e [canal de aquisição]. Se algum dos três não estiver na frase, marque como **AUSENTE** e proponha um candidato razoável.
2. Para cada um dos três (ausente ou presente), tente trocar por uma alternativa razoável e me diga se a frase ainda faria sentido com a troca.
3. Veredito: "wedge bem definido," "wedge com elemento X vago," ou "ainda é uma família de produtos, não um wedge específico."
4. Se o veredito não for "bem definido," sugira **um único ajuste pequeno** para especificar (exemplo: trocar "pequenos negócios" por "contador autônomo MEI"). Não me dê um plano completo, só um ajuste.
Saída: análise, veredito, e (se aplicável) a sugestão de ajuste.A resposta do Claude vai te dar uma noção honesta de onde a sua ideia está. Não tente reescrever agora. Peça pro Claude salvar a resposta dele em notas/wedge-rascunho.md na raiz do seu projeto. A L02 vai ler esse arquivo pra começar o exercício do docs/product.md.
Takeaways
- Wedge = um usuário × uma tarefa × um canal de aquisição. Os três precisam aparecer na mesma frase.
- Teste do triângulo: troque cada um dos três por uma alternativa razoável. Se a frase continua válida, aquele elemento estava vago.
- "Marketing digital" e "redes sociais" são categorias, não canais. Canal real é específico o bastante pra apontar a primeira pessoa pra quem você manda o produto na semana 1.
- O wedge é decidido antes de codar. No CEAP, o triângulo da aba do TCU virou a primeira frase do plano de feature e ditou o tom do produto.
Você terminou quando
Você consegue articular o triângulo usuário × tarefa × canal de pelo menos 2 produtos brasileiros que você usa, e tem um rascunho do triângulo da sua própria ideia, mesmo que parcialmente vago.